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#URBANISMO

A hora e a vez do morro

O Rio de Janeiro nunca teve um projeto que endereçasse seu crescimento urbano, o que criou um processo em que leva, necessariamente, a um aumento das favelas

Fersen Lambranho, para Headline Ideias
#URBANISMO20 de nov. de 204 min de leitura
Cena do filme Orfeu Negro (1958), de Marcel Camus, ajudou a romantizar para o mundo a imagem das favelas. Foto: Cinéma Public Films
Fersen Lambranho, para Headline Ideias20 de nov. de 204 min de leitura

Não apenas um dos livros mais interessantes de se ler na escola, O Cortiço, de Aluísio Azevedo, é o melhor exemplo do nosso Naturalismo.

Personagens como Rita Baiana, o português João Romão, casado com Bertoleza, dentre tantos outros, como Pombinha, Jerônimo, Firmo, Zulmira, Leonie..., eram arquétipos dos diversos grupos que inspiraram o autor e, na realidade, deveriam morar no famoso Cabeça de Porco no Rio de Janeiro. Para quem não se recorda, o Cabeça de Porco era um imenso cortiço que ficava na região onde temos, hoje, a Central do Brasil.

Um determinado dia, a polícia destruiu o Cabeça de Porco, que abrigava soldados egressos da Guerra dos Canudos, ex-escravos, nordestinos retirantes... Permitiu, no entanto, que as madeiras dos restolhos fossem usadas para construções de barracos nos morros. E assim se deu o início das favelas do Rio.

Em todo o mundo, por uma questão de segurança, a classe mais abastada mora em morros, enquanto os menos favorecidos ficam na planície. Basta observar onde, nas cidades medievais, fica localizado o castelo do senhor feudal.

As favelas, que se assemelham às Caabas do Norte da África, possuem vias estreitas e encasteladas, tornando o acesso difícil. A partir de 1982, a alvenaria passou a substituir a madeira que, simbolicamente, indicava que os barracos eram provisórios, mesmo depois de décadas de estabelecidos.

As cidades brasileiras não costumam ser pensadas. O Rio de Janeiro, em especial, nunca teve um projeto que endereçasse o crescimento urbano e o transporte dos trabalhadores, o que criou um processo em que o crescimento da cidade leva, necessariamente, a um aumento das favelas. As pessoas não podem passar (ou pagar...) quatro horas, por dia, indo e vindo para/do seu local de trabalho.

Qualquer um que se encontrar na região da Central do Brasil, no Centro do Rio, por volta de 19h, vai ver os pontos de ônibus lotados, como se o mundo estivesse acabando. Vi algo similar apenas em Pyongyang, capital da Coreia do Norte, onde não existe carro para o povo, e o transporte é gratuito.

A favela foi romantizada de todas as formas. Apresentada para o mundo em filmes como “Orfeu do Carnaval”, até hoje atrai turistas para verem uma das vistas mais bonitas do mundo.

Já no filme “Cidade de Deus”, a favela desceu ao inferno, ao projetar uma civilização da barbárie.

Embora muito associada a seu maior contigentes de pessoas, os pretos, a favela abriga pessoas de diversas origens e raças.

Nas favelas, o Estado de Direito não se aplica. Não há segurança, serviços públicos e direitos civis.

Mais pluralidade

Vera Magalhães vem fazendo escolhas de alta qualidade para o programa Roda Viva. O esforço de Vera se junta a muitas iniciativas que buscam dar maior pluralidade ao debate da sociedade brasileira, e quebra um tabu, intestino do jornalismo, ao colocar – em horário e programa nobres, vozes de pretos, mulheres, blogueiros...

No lado mais intelectual, o esforço de Lilia Schwarcz é louvável, ao usar sua linha de pesquisa em história em favor da maior compreensão da desigualdade estrutural do país e dando voz em seu canal de YouTube para a diversidade.

Jose Papa, depois de uma longa carreira internacional, voltou ao Brasil para empreender a TRACE BRAZUCA. TRACE GLOBAL é a maior plataforma de cultura afro, e foi criada na França, em parceria com ADJunior, um dos representantes dessa nova elite de pretos.

No dia 16 de novembro de 2020, o Roda Viva trouxe a entrevista do cearence Preto Zezé, atualmente presidente da CUFA (Central Única das Favelas). Recomendo fortemente o programa (vídeo acima), no qual Preto Zezé apresenta uma visão realista das favelas e as possíveis soluções.

Eu não tenho capacidade de transcrever, aqui, o que ouvi mas nunca vivi.

Vinícius de Moraes, diplomata e poeta, dizia-se o branco mais preto do Brasil. No microcosmo da música é impossível esconder a força da nossa herança afro.

Hoje, Vera, Lilia e Papa usam seu conhecimento e influência para que pessoas com a legitimidade de quem sofre na própria pele tenham um espaço onde possam falar livremente. A sociedade precisa ouvir em primeira pessoa e sem tradução.

No nosso drama urbano, a favela não é causa. É consequência.

* Fersen Lambranho é presidente do conselho da GP Investments e G2D Investments. Texto publicado originalmente em 20 de novembro de 2020.

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