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Da era da inteligência artificial à COP26, a voz retumbante é a dos centenários

Os centenários Henry Kissinger e David Attenborough demonstram o poder de pensar a longo prazo, reafirmando que a humanidade tem as ferramentas para ser bem sucedida

Fersen Lambranho, para Headline Ideias
#TECNOLOGIA13 de nov. de 214 min de leitura
Visitante participa do Mobile World Congress (MWC), congresso da indústria das telecomunicações e tecnologia em Barcelona. Foto: Josep Lago/AFP
Fersen Lambranho, para Headline Ideias13 de nov. de 214 min de leitura

Em junho de 2018, Henry Kissinger, secretário de Segurança dos governos Nixon e Ford, surpreendeu o mundo com um artigo na prestigiosa The Atlantic: "How the Enlightenment Ends" ("Como o Iluminismo termina", na tradução livre).

Kissinger, judeu nascido na Polônia, refugiou-se nos Estados Unidos, onde se tornou o mais influente e respeitado "conselheiro" no campo da geopolítica. Kissinger esteve envolvido em tudo de relevante que aconteceu na segunda metade do século 20, e veio a ganhar o Premio Nobel da Paz em 1973.

Não vale entrar aqui nas suas responsabilidades no tocante à Guerra do Vietnã, abertura da China, dentre outros. O relevante para mim, neste texto, é que, do alto dos seus 95 anos de idade incontestavelmente bem vividos, ele se arvora a escrever sobre Inteligência Artificial e seus efeitos no mundo à frente.

Em “How the Enlightenment Ends”, Kissinger mostra que, para discorrer sobre o tema, estudou, pensou e refletiu longamente sobre o mesmo, para fazer um alerta ao final: o Iluminismo, que tanto influenciou nossa sociedade, nasceu na Filosofia, e impactou a tecnologia. Hoje, esse processo se inverteu, e os Estados Unidos estão atrás de outras nações, que fizeram da Inteligência Artificial um projeto nacional prioritário. Ele conclama os EUA a criarem uma comissão multidisciplinar para tratar do tema.

Ao completar 98 anos, e ainda trabalhando intensamente, Kissinger se juntou à Eric Schmidt, ex-CEO e chairman da Google e Alphabet, e Daniel Huttenlocher, reitor da Schwarzman College of Computing do MIT, para lançar um livro chamado “The Age of AI” – "A Era da IA".

O quase centenário Kissinger volta ao tema, agora cercado de pessoas de tecnologia, para alertar que a Inteligência Artificial provocará uma nova Era do Renascimento para a Humanidade. Portanto, deve ser usada de forma a evitar os extremos negativos. No texto, também fica clara sua admiração pela IA.

Kissinger propõe um grande esforço para se lidar com as implicações práticas e legais do uso da IA, sem abrir mão das questões filosóficas. Com a certeza que a IA vai invadir e dominar tudo, em campos tão diversos como medicina, agricultura, engenharia, saúde pública, etc, relembra que devemos ter em mente valores universais da humanidade, tais como dignidade e moral.

Conferência do Clima

Nesse mesmo momento, na COP26, em Glasgow, Sir David Attenborough, aos 95 anos, e com uma elegância britânica, subiu ao palco sozinho, com a “moral” de quem tanto contribuiu para que o tema do meio-ambiente chegasse às pessoas comuns. Durante décadas, o naturalista, em parceria com a BBC, encantou o mundo por meio de programas nos quais reproduzia a natureza com beleza, profundidade e genialidade.

Com maestria, Sir Attenborough deu, em apenas sete minutos, um recado simples, usando imagens que coletou em todas essas décadas (vídeo acima). Todos nós, e em especial a plateia de especialistas que lá estava, conhecemos seus argumentos. Porém, nos últimos segundos, ele vaticinou: “Somos poderosos o suficiente para juntos salvarmos o planeta. No meu tempo de vida vi um declínio, mas no seu, vocês podem e devem testemunhar uma impressionante recuperação do meio ambiente. Senhores e senhoras, o mundo olha para vocês, e por isso estão aqui”.

Sir Attenborough e Mr. Kissinger conheceram o planeta e, acima de tudo, viveram. Um registrou incríveis e inéditas imagens, como as aves que conseguem ultrapassar o Everest, os seres exóticos dos diversos continentes, a beleza das profundezas dos oceanos, o fantástico universo das plantas, e muito mais. O outro cruzou os oceanos, promovendo a paz e a guerra.

Ambos são exemplos vivos de que se manter conectado com o mundo talvez explique a longevidade. Ambos tiveram altos e baixos, momentos de glória, tristeza e fracasso.

Neste ano de 2021, os dois quase centenários jogam um holofote sobre o futuro, apontando os desafios e a certeza de que a humanidade tem as ferramentas para ser bem sucedida. O maior legado que nos deixam é o de demonstrar o poder de pensar a longo prazo, em qualquer momento da nossa frágil existência.

* Fersen Lambranho é presidente do conselho da GP Investments e G2D Investments. Texto publicado originalmente em 13 de novembro de 2021.

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