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Em 40 anos, do Muro de Berlim ao escombros ao eterno ovo da serpente

Com a queda do comunismo, alemães puderam reunir suas famílias e reconstruir sua nação. De certa forma, a Alemanha liderou a agenda verde e da paz no imaginário de minha geração

Fersen Lambranho, para Headline Ideias
#CINEMA27 de out. de 215 min de leitura
Cena do filme alemão "A Onda" (2008), de Dennis Gansel, em que Jürgen Vogel é um professor de escola na Alemanha que lança uma experiência sobre autocracia. Foto: IFC Films/Divulgação
Fersen Lambranho, para Headline Ideias27 de out. de 215 min de leitura

Era início de 1982, e estávamos perto de Wolfsburg, que na época fazia parte da Alemanha Ocidental.

Depois do jantar, as três filhas dos donos da casa pegaram o violão e cantaram em alemão, inglês e francês. Era uma família dessas que pareciam saídas dos antigos comerciais de margarina: louros, dentes brancos, e felizes.

Todos eram pessoas extremamente cultas, que conversavam de qualquer tema – exceto a II Guerra Mundial. Quando puxei o tema, recebi um silêncio sepulcral.

No dia seguinte, depois de passarmos pela sede da Volkswagen, paramos para ver um pedaço da gigantesca grade que separava toda a Alemanha – em Berlim, como se sabe, essa grade tinha a forma de um muro. No setor da grade que visitamos tinha uma placa de alerta comunicando que, se você tivesse interesse em escalá-la, deveria saber que existiam 20 itens de proteção, tais como eletrificação, minas terrestres, metralhadoras, etc…

O governo da República Democrática da Alemanha (DDR, ou RDA na sigla em português), a Alemanha Oriental, alegava que a grade tinha como finalidade evitar que os alemães ocidentais invadissem a DDR, para tirarem proveito das maravilhas do comunismo. Hoje sabemos que esse discurso era muito tosco, pois basta visitar o atual Museu do Checkpoint Charles para se conhecer a inventividade das tentativas de fuga dos alemães orientais. Não há nenhum registro do oposto, ou seja, de pessoas da Alemanha Ocidental querendo ir para a DDR.

Quando, em 1989, o Muro de Berlim caiu, os alemães orientais encheram as estradas que os levavam para a Alemanha Ocidental, e famílias abandonavam seus carros-carroças, quando esses quebravam no meio do caminho, na ânsia de respirarem o ar do Ocidente.

O ano de 1989 marcou a vitória do capitalismo. Neste momento, o grande país comunista chamado China já caminhava para uma economia de mercado, num dos mais impressionantes episódios de crescimento econômico da história.

Os alemães puderam reunir suas famílias e reconstruir sua nação. De certa forma, a Alemanha liderou a agenda verde e da paz no imaginário de minha geração.

“A Onda” (Die Welle), um filme alemão dirigido por Dennis Gansel e lançado em 2008, trouxe um tema ao debate. Um professor universitário, tendo que ensinar regimes políticos para alunos de ensino médio, decide criar um laboratório comportamental, e consegue reproduzir o Nazismo em sala de aula. O processo sai do controle completamente. O filme traz um alerta importante, ao mostrar que é possível reconstruir as atitudes que levaram ao Nazismo, dependendo da forma de liderança que se aplica sobre um grupo. Foi como se um ovo tivesse sido quebrado – afinal, estava ali uma hipótese de que o povo alemão não estava “blindado”.

Acredito que obras de arte não nascem ao acaso. Se um filme como “A Onda” foi produzido e aclamado, é porque a sociedade viu algum valor no mesmo.

Há algum tempo, a Netflix se transformou numa grande plataforma global de “streaming”, cuja maior importância/virtude é permitir que todos que produzem conteúdo de qualidade tenham uma distribuição. Netflix rompeu com o monopólio cultural americano, e nos brinda com filmes e séries espanholas, coreanas, polonesas, etc.

Cartazes dos filmes Je Suis Karl, A Onda e Ridley Road
Cartazes dos filmes Je Suis Karl, de Christian Schwochow, e A Onda, de Dennis Gansel, e da série britânica Ridley Road, da BBC. Imagens: Pandora Film, IFC Films e BBC/Divulgação

Neste ano de 2021 foi lançado, na Netflix, um filme alemão chamado “Je Suis Karl”, dirigido por Christian Schwochow, que trata de jovens politizados nos dias de hoje. Esses jovens criam “fake news” para defenderem a perseguição aos imigrantes em toda a Europa. Karl e seus parceiros são protofascistas, que “produzem” fatos para obterem seus intentos. Fiquei chocado com o fato de que a turma de Karl é da geração dos meus filhos.

No mesmo momento, a BBC inglesa lançou uma série chamada “Ridley Road”, que conta a história de um grupo nazista na Inglaterra, desbaratado em 1962 por resistência de judeus ingleses. “Ridley Road” se baseia em um caso real.

Desalento e perspectivas

As razões que fundamentam Karl e os líderes do Ridley Street são as mesmas, assim como são idênticas as formas de atacarem suas frustrações, e estão relacionadas ao desalento e à falta de perspectiva econômica.

Nestes 40 anos, fui testemunha de como um assunto considerado passado se tornou mais uma vez tema de discussões, artigos, filmes, etc. Nestes 40 anos, vi pessoas que antes se preocupavam em não falarem ou agirem de maneira a serem chamadas de fascistas e nazistas perderem a vergonha de se comportar de forma a dar margem a duvidas de seus reais valores.

Dia 20 de outubro de 2021, a Câmara de Vereadores de Porto Alegre foi atacada por um grupo que tinha cartazes com símbolos da suástica nazista. Nada aconteceu com os invasores, apesar da lei no Brasil ser clara ao determinar que a apologia ao Nazismo é crime, e estipular multa e pena de dois a cinco anos de prisão:

“(…) fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo…”

A serie “Ridley Road” tem um final positivo e baseado em historia, mas termina com a seguinte frase:

“A Luta contra o fascismo continua…”

Já o diretor de “Je Suis Karl” não chega a arriscar um fim para seu enredo.

* Fersen Lambranho é presidente do conselho da GP Investments e G2D Investments. Texto publicado originalmente em 27 de outubro de 2021.

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