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Em busca do Elon Musk brasileiro para a Amazônia

Nosso “Moonshot” não é sairmos da Terra, mas desvendar o conhecimento guardado no Jardim do Éden que herdamos dos nossos antepassados – e do qual somos apenas uma parte

Fersen Lambranho, para Headline Ideias
#MEIO AMBIENTE3 de nov. de 207 min de leitura
Evolução do desmatamento na Amazônia entre 1994 e 2018, ano em que se estimou que 17% da floresta já teria sido destruída. O chamado tipping point, o ponto de não retorno da devastação, acontecia com o desaparecimento de 20% a 25% da floresta. Imagem: Google Earth Timelapse (Google, Landsat, Copernicus)
Fersen Lambranho, para Headline Ideias3 de nov. de 207 min de leitura

Fui convidado para conhecer o Royal Botanic Gardens em Londres: Kew Gardens, uma instituição que data dos meados do século 18.

Tivemos o privilégio de ser levados a um local grande, com estantes em três níveis, e um pé direito altíssimo.

“Bem-vindos à coleção do Brasil”

Vimos plantas guardadas secas entre folhas de cadernos, além de uma infinidade de amostras e material genético de nossa flora, preservados do outro lado do Atlântico.

Não encontramos apenas nossas plantas na Europa. Mais de uma centena de cientistas brasileiros moram e trabalham aqui, provavelmente em busca de condições mínimas para seguir sua vocação. Imagino que vários devam utilizar recursos e material de trabalho coletado, nestes últimos 200 anos, pelas missões naturalistas europeias e americanas.

Muitos dos nossos jovens cientistas trabalham remotamente, longe do laboratório natural mais rico do planeta, a Amazônia.

Tem algo de errado neste modelo.

Elon Musk consegue contratar qualquer gênio brasileiro só pelo desafio de conquistar o espaço. Acho totalmente correto o homem se habilitar a conquistar o espaço, até porque isso será imperativo daqui a bilhões de anos. Além do que o sonho do espaço gera muita tecnologia, uma vez que as pessoas passam a pensar no “Moonshot”.

Porém, cabe uma pergunta: quem vai cuidar da Terra?

Oceanos imensos, profundos, ricos e desconhecidos respondem por 70% do nosso planeta. Os 30% restantes são habitados por animais, incluindo nós. Esse espaço ainda é pouco ocupado, apesar de 7 bilhões de seres humanos.

Nossa Amazônia responde pela maior diversidade em formas de vida do planeta, com uma riqueza infinita de fauna, flora e micro “tudo”, muito além da nossa compreensão. A floresta Amazônica, segundo estudos recentes, é fruto da interferência humana que, ao longo dos últimos 4 mil anos, foi desenvolvendo-a para o uso e a manutenção de vida.

A floresta é a maior obra humana na América, superando as pirâmides astecas, incas, etc.

Quando a geração “millennial” fala que quer um produto natural, não está se referindo a um produto químico, com uma pitada de planta, para poder ler no rótulo que é natural. O que está dizendo é que acredita que a natureza, que nos criou, tem os elementos necessários para resolver qualquer necessidade ou reparação do nosso corpo. Nossa composição corporal é do mesmo material que os elementos da natureza. Sendo assim, a humanidade precisa estudar, hackear e decodificar as moléculas da flora e da fauna, para compreender o conhecimento que lá foi plantado pelos povos originais. Esse conhecimento está na memória oral, em uma região onde existem, hoje, 50 raízes linguísticas – na Europa, são apenas três.

A Floresta Amazônica, em todos os sentidos, é uma biblioteca infinita de sabedoria e soluções da natureza, e guarda o conhecimento dos habitantes que vieram antes de nós. Preservar os povos originais, assim como as populações locais que lá estão, é também fundamental, porque fazem parte do todo. Na floresta não existe privacidade – a floresta é o todo e é o coletivo.

Quando os portugueses chegaram no Brasil, representavam um reino de 1 milhão de pessoas, e dominaram 20 milhões de habitantes, 8 milhões dos quais encontravam-se na Amazônia. O Brasil era o paraíso, porque o ser humano e a natureza estavam em harmonia e em constante evolução. É tempo de resgatar esse conhecimento, que está escrito dentro do DNA de tudo que cresce ao sol e sob as copas das árvores. A busca do infinito dentro de nós.

A Amazônia tem a matéria-prima para desenvolvimento de soluções para tudo que se relaciona com a vida na Terra. Enquanto a inteligência artificial está buscando, nos maiores centros do mundo, formulações sintéticas para vacinas, remédios..., na Amazônia a IA pode trabalhar com a matéria-prima de “verdade”, obtendo soluções naturais.

O material de trabalho na Amazônia é um “arquivo” que levaremos séculos para desvendar. No entanto, podemos colher frutos imediatos, ao mantermos a floresta o mais intacta possível. Se cuidarmos da floresta, ajudamos a reter o CO2 no solo, e evitamos o aquecimento global – existe algum “serviço” maior que a Amazônia possa fazer para o planeta e a humanidade?

Desmatamento causado pela ampliação de um trecho da BR-230, rodovia Transamazônica, em Humaitá, estado do Amazonas, em 16 de setembro de 2022. A pergunta é: quem vai cuidar da Terra? Foto: Michel Dantas, AFP

Atrair os cérebros do mundo

O Vale do Silício não tem silício – tem cérebros, e cria riqueza ao atrair e juntar cérebros do mundo todo. O sol da Califórnia, que embalou a maior corrida de empreendedorismo americano no século 19, e criou a indústria dos sonhos chamada de cinema, agora é o epicentro da revolução digital.

Acredito que o Vale do Silício nasceu do espírito empreendedor de jovens, que decidiram construir um novo mundo e questionar o status quo. O Vale do Silício surgiu da confluência de cérebros do mundo todo.

Quando vejo a Amazônia como nosso Vale do Silício é porque enxergo um manancial de possibilidades científicas inesgotável, e não apenas o “serviço” de limpar o ar que sujamos, com cada ato da nossa vida.

Quando comemos, acendemos a luz, andamos de carro, e demais coisas simples do dia a dia, ou seja, para mantermos nosso conforto hoje, e garantirmos que as futuras gerações tenham um planeta para habitar, precisamos ter uma floresta que compense o CO2 que liberamos no ar. Estamos próximos de um desastre ecológico em uma década, segundo alguns estudiosos.

Imagino que se Elon Musk consegue arregimentar capital e gente para sair da Terra, deve ser mais fácil que surja um Elon Musk brasileiro, capaz de sonhar em conquistar o conhecimento da vida que está em torno de nós.

Nosso “Moonshot” não é sairmos da Terra, mas desvendar o conhecimento guardado no Jardim do Éden que herdamos dos nossos antepassados, e do qual somos apenas uma parte.

Os “millennials” estão questionando o status quo de tudo e de todas as marcas estabelecidas, que foram se transformando em “junk”, até mesmo sem perceber ou intenção nas últimas décadas.

A tecnologia segue a passos largos para biologia, e a oportunidade, para nossos jovens, está em fazer da Amazônia o grande centro de “Biotech” do Mundo. Elon Musk que me desculpe, mas o propósito de preservar a vida na Terra, sem tirar a importância da conquista do espaço, tem que ser mais urgente e relevante.

Não creio em projetos filantrópicos de bilionários (já existiram tantos...) como solução escalável, nem em iniciativas que não envolvam as melhores cabeças do mundo no ramo. Porém, acredito muito na força criativa de uma geração que se move por uma causa, na força do “crowdfund”, e no trabalho conjunto do aluno da primeira carteira da classe com a turma “do fundo”, desde que dividam a mesma meta.

A Amazônia precisa ser vista com respeito, da mesma forma que o mundo olha para o Vale do Silício. O mundo que vivemos tem capital de sobra, mas faltam projetos com propostas relevantes, credibilidade e “accountability”.

No Vale do Silício, bilionários correm, de joelhos, atrás de jovens brilhantes para colocar dinheiro em “startups”. O que precisamos, então, é conseguirmos gerar a mesma dinâmica na Amazônia. No Vale do Silício criou-se tecnologia que, aplicada na Amazônia, permite alcançar objetivos até pouco tempo impensáveis, seja na valoração dos serviços da floresta, como no desenvolvimento da ciência da Vida. Cientistas como Marcos Nobre e Beto Verissimo, que estão há décadas dedicados à região, já formularam o conceito da Amazonia 4.0 como um caminho. A Amazonia é nossa e, por isso, precisa ser preservada. Amazônia em pé, decifrada, é um bem para toda a Humanidade.

* Fersen Lambranho é presidente do conselho da GP Investments e G2D Investments. Texto publicado originalmente no jornal O Estado de S.Paulo em 3 de novembro de 2020.

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