Conecte-se

#FOTOGRAFIA

Fotografia e a arte de roubar almas

Parei para folhear livros de fotógrafos como Cartier-Bresson, Capa e Adams. Impressionante a força de uma fotografia, e como se pode dizer tudo com um simples apertar de botão

Fersen Lambranho, para Headline Ideias
#FOTOGRAFIA30 de jan. de 213 min de leitura
A Morte de um Soldado Republicano, foto clássica de Robert Capa, então com 22 anos, imortaliza a queda do soldado anarquista Federico Borell Garcia, na Guerra Civil Espanhola. Dúvidas sobre a autenticidade da imagem pairam sobre o clichê, transformado em ícone. Foto: Robert Capa
Fersen Lambranho, para Headline Ideias30 de jan. de 213 min de leitura

A cada cinco anos assisto a trilogia do Poderoso Chefão. Todas as vezes aprendo algo novo, assim como percebo, em algumas cenas, pistas e sinais que não tinha percebido ainda.

A riqueza da vida está na sutileza e em desvendá-las. Cresci num país em que livros, jornais, filmes e músicas eram cifrados, por serem censurados, e o grande "barato" era ler as entrelinhas.

Parei nos últimos dias para folhear livros de fotógrafos como Henri Cartier-Bresson, Robert Capa e Ansel Adams. Impressionante a força de uma fotografia, e como se pode dizer tudo com um simples apertar de botão. Imprimir para todo o sempre um sentimento, um desespero e uma alegria.

Imagens como o beijo do marinheiro na enfermeira na Times Square, no dia da Vitória na II Guerra Mundial, a menina nua ferida de napalm no Vietnam, o soldado da Falange sendo atingido na cabeça durante a Guerra Civil Espanhola, e tantas outras que, com seu impacto, moveram governos e despertaram multidões.

Os grandes fotógrafos têm uma habilidade de entrar em consonância com o que fotografam. Grandes fotógrafos usam o preto e branco com frequência. Acho que, ao "descolorirem" as imagens, buscam se aproximar da essência do objeto fotografado – afinal, sabemos que as cores não existem de verdade, e que o reflexo da luz sobre a superfície é que cria o efeito de cor em nossas retinas.

A fotografia é parte relevante de nossas vidas, tanto que os aparelhos celulares tornaram-se, na verdade, máquinas fotográficas que permitem comunicação. Por isso que, no "pitch" de venda, a evolução da capacidade de fotografar é tao enfatizada.

Eu, particularmente, percebo como é diferente fotografar alguém que amo. Muitas vezes, quando quero expressar um sentimento, mando uma simples foto no lugar de texto.

Beijo na Times Square, em Nova York: foto icônica
V-J Day in Times Square, a foto clássica de Alfred Eisenstaedt de um beijo nas ruas de Nova York: imagens se tornam ícones. Foto: Alfred Eisenstaedt/ US archives, domínio público.

O fotógrafo que ama o que faz pode fazer de seu trabalho uma obra única. Orlando Brito, fotógrafo de política em Brasília, tem um conjunto de fotos que conta a história política do Brasil nas últimas décadas. Na busca do que ama, Orlando foi quase linchado em uma manifestação de bolsonaristas em 2020. Enquanto seu trabalho ficará para todo o sempre, seus agressores serão apenas coadjuvantes irrelevantes na obra dele.

Sebastião Salgado esteve em diversas partes do mundo, fotografando a fome, o desalento, o desespero. Suas fotos valem mais que qualquer tratado para explicitar as mazelas da humanidade. Sebastião usou a foto para defender as causas dos índios, dos refugiados, dos injustiçados, além do meio ambiente.

Claude Levi-Strauss, que tem uma importante obra antropológica sobre índios no Brasil, usava a fotografia como um elemento essencial para tornar sua tese mais forte e convincente.

Estou citando aqui três casos que, provavelmente, não entrariam no top 10 de fotógrafos do planeta. Nem por isso deixam de ter sua importância – basta uma foto para tornar seu fotografo imortal.

Cada foto representa um momento único na História e torna-se, portanto, irreplicável para todo sempre.

Os índios cherokee acreditavam que a fotografia lhes roubava a alma. De certa forma, não estavam errados...

* Fersen Lambranho é presidente do conselho da GP Investments e G2D Investments. Texto publicado originalmente em 30 de janeiro de 2021.

#FOTOGRAFIA
CARTIER-BRESSON
CAPA
ADAMS
IMAGEM