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Haja o que houver, Portugal estará aqui

Nessa ponta da Europa, que se debruça sobre o Atlântico, está o nosso berço, nossa "alma mater" e nosso elo mais forte da corrente que vai pelo fundo do oceano.

Fersen Lambranho, para Headline Ideias
#LISBOA4 de abr. de 213 min de leitura
Praça do Comércio, centro de Lisboa Foto: Photo by Joan Costa/Pexels.
Fersen Lambranho, para Headline Ideias4 de abr. de 213 min de leitura

Passei pela laranjeira cheia de frutos, e sentei no alpendre, onde é possível ouvir o barulho perturbador do silêncio, enquanto olho para o céu de um azul limpo.

Mesmo no inverno, o jardim é colorido. No entanto, sinto falta dos caquis que me acompanharam no verão.

Portugal foi, no ano mais difícil da minha vida, como uma volta ao útero.

Portugal me deu calor, proteção e paz. Todas as interações que tive com pessoas da rua, das repartições, e em todos os lugares, trouxeram-me recordações da minha infância no Rio que se perdeu.

As pessoas que nos atenderam e nos serviram, oriundas de Angola, lembraram-me do carinho e do zelo que sempre recebi na casa da minha familia.

Portugal foi para mim como imagino que a Ilha de Salina, na Sicília, representou na vida de Pablo Neruda (ver filme Il Postino).

Estar um tempo com minha única irmã, Fernanda, foi como se as partes que restaram dos nossos pais se encontrassem, na hora mais escura, para que nos protegêssemos mutuamente, e celebrássemos a herança de amor que nos deixaram.

Foram sábados à mesa, em longos almoços regidos por meu cunhado, Paulo, que se preocupava, com muito carinho, em atender aos gostos de cada um de nós.

Longas tardes como no tempo dos nossos avós. Foram domingos de estar juntos, de rir, de conversar, das ginginhas e dos leitãozinhos de Negrais.

A vida foi passando como se houvesse um descompasso no tempo, que passou rápido, embora o ritmo fosse lento.

Correr – para manter o corpo são – vendo a linda vista daquele momento quando a terra acaba e nasce o mar. O mar cujo sal, como todos sabem, foi feito das lágrimas do povo desbravador de Portugal.

O impacto eletrizante de estar conectado ao mundo, por uma tela de computador, "pulando" de Londres para São Paulo e para Nova York em minutos, foi amortecido pelo canto das andorinhas.

Eu me virtualizei para o mundo, e me materializei para minhas raízes mais profundas.

Agora, embarco para o Reino Unido para ser vacinado de esperança, e para recomeçar o (incerto) resto da minha vida, a ser erguido sobre os escombros do que ficou abandonado em março de 2020.

O tempo de Portugal ficará como uma cicatriz profunda no meu coração. Agora, compreendo o porquê da exclamação dolorosa e gutural que sempre ouvi dos desterrados que habitavam o Rio de quando nasci: "Saudades da Terrinha...".

Nessa ponta da Europa, que se debruça sobre o Atlântico, está o nosso berço, nossa "alma mater" e nosso elo mais forte da corrente que vai pelo fundo do oceano.

Corrente imensa, enferrujada e coberta de sargaço, de restos de roupas, de pedaços de livros, de ossos e de ouro/prata perdidos no tempo ao longo do caminho da terra da esperança onde canta o Sabiá.

* Fersen Lambranho é presidente do conselho da GP Investments e G2D Investments. Texto publicado originalmente em 4 de abril de 2021.

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