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"Imagine" 50 anos depois

A ditadura nos roubou os anos 70 e nossa adolescência. Uma ditadura sempre sequestra parte da nossa alma e ceifa a nossa contemporaneidade

Fersen Lambranho, para Headline Ideias
#CULTURA11 de jun. de 215 min de leitura
John Lennon, Yoko Ono, Marvin Gaye, Aretha Franklin, George Harrison e Ravi Shankar, personalidades de "1971 – The Year That Music Changed Everything". Fotos: Divulgação/Apple TV+
Fersen Lambranho, para Headline Ideias11 de jun. de 215 min de leitura

O ano de 1971 foi difícil para mim, afinal, precisei fazer um “vestibular” para entrar na quinta série de uma boa escola pública em São Paulo. Minha recordação mais marcante, no entanto, foi a do Natal, pois foi o primeiro Natal da minha vida sem a magia da infância, que começava a se esvair.

Ganhei um rádio de pilha Philco para ouvir jogos de futebol que, naquela época, não passavam na televisão. Todo domingo era uma aflição, porque o jogo tinha chance de ser televisionado, caso o estádio lotasse. Isso acontecia assim, de supetão, de modo que o estresse domingueiro quase sempre acabava em frustração e rádio no ouvido.

A Apple produziu um documentário sobre o ano de 1971 – "1971 – The Year That Music Changed Everything" –, o qual me permitiu realizar que aquele sentimento de angústia infantil, nunca esquecido, estava conectado com algo maior e geral.

O ano de 1971 marcou o fim do sonho dos Beatles, a morte de Janis Joplin, Jimmy Hendrix e Steve Morrison. Naquele ano morria o romantismo dos anos 60, que preconizava a Revolução da Paz e do Amor, e tinha início a era de Aquário.

A realidade suplantou o sonho hippie, e se mostrava nas toneladas de heroína que caiam sobre os soldados do Vietnã, na violência da polícia para com os Panteras Negras, no embalo rebelde do feminismo, na cintura rodopiante de Tina Turner e na voz afiada de Aretha Franklin, nas drogas pesadas que fizeram com que os Rollings Stones fugissem da Europa, e na androgênica subversão de tudo de David Bowie.

Nos anos que se seguiram, os anos da minha adolescência, já se podia espreitar o caminho que o mundo tomava. Em 1971 o The Who ensaiava o sintetizador, que era o inicio da música que, um dia, seria digital, Alice Cooper descobriu que os adolescentes gostavam do macabro, e iniciou uma estética distópica. Os jovens britânicos, pós-Beatles, sentiam-se inúteis e marginais, o que os levaria, nos anos subsequentes, ao Punk.

O mundo em turbilhão não cabia na nossa ditadura tropical, e todas essas tendências foram chegando aqui aos poucos. O ano de 1971 do mundo se esparramou pelo Brasil ao longo dos anos seguintes, misturando-se com tendências que seguiram, fazendo com que aqueles anos fossem tempos confusos, como confusos são os hormônios de um adolescente.

Um país em ditadura não permite que as pessoas vivam o seu tempo. Realizei isso recentemente, quando conheci a esposa de um amigo americano, que mora em Londres, e está casado com uma russa que viveu quase toda sua vida na URSS. Ela é uma pessoa sofisticada, culta e muito inteligente, mas tem “buracos” de conhecimento porque não teve acesso, durante sua vida, a eventos como Woodstock, a filmes italianos ou franceses, personagens pops e por aí vai. Entendi que a vida sob o jugo de uma ditadura é igual em qualquer lugar do mundo, e que o resultado é o mesmo: rouba das pessoas o seu momento de vida.

O ano de 1971 terminou no Brasil em 1977, quando a censura permitiu a exibição do filme “Laranja Mecânica”, apesar das bolas pretas que seguiam os mamilos nus de uma atriz do filme ( cena bizantina). O filme, que era premonitório do que seriam os anos 70, parecia-nos “datado”, quando exibido em 1977. Assistir Laranja Mecânica não foi, para minha geração, como deveria ter sido em 1971, quando representou um ato de vanguarda. Em 1977 era como um ato de chutar a canela: apesar de vocês, vou assistir esse filme por rebeldia apenas.

Naquele momento, 1971 já tinha perdido sua força, e os corpos seminus e suados rodavam como pombagira nas pistas das discotecas, como se não houvesse o amanhã. Os jovens que nós éramos já tinham assumido o caminho dos passos de John Travolta e a cultura yuppie estava na esquina.

A Ditadura nos roubou os anos 70 e nossa adolescência. Uma ditadura sempre sequestra parte da nossa alma e ceifa a nossa contemporaneidade. John Lennon, em outubro de 1971, subverteu o momento e a nossa realidade, gravando, apenas com um piano branco, o hino maior de nosso tempo: “Imagine”.

"Imagine there's no heaven
It's easy if you try
No hell below us
Above us only sky
Imagine all the people
Living for today
Imagine there's no countries
It isn't hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion too
Imagine all the people
Living life in peace
You may say I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope someday you'll join us
And the world will be as one
Imagine no possessions
I wonder if you can
No need for greed or hunger
A brotherhood of man
Imagine all the people
Sharing all the world
You may say I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope someday you'll join us
And the world will live as one."

* Fersen Lambranho é presidente do conselho da GP Investments e G2D Investments. Publicado originalmente em 11 de junho de 2021

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