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O discurso dos príncipes

Palavras de Joe Biden em sua posse são simples e diretas, como as de quem atende um paciente na UTI. Trata-se da busca de um novo enredo não só para os EUA, mas para todo o mundo

Fersen Lambranho, para Headline Ideias
#INTERNACIONAL21 de jan. de 214 min de leitura
Joe Biden presta juramento e torna-se o 46º presidente dos Estados Unidos em 20 de janeiro de 2021. (AFP)
Fersen Lambranho, para Headline Ideias21 de jan. de 214 min de leitura

Em 20 de janeiro de 2009, Mateus e eu estávamos navegando no Rio Nilo, observando o berço da civilização, e paramos para assistir à posse do Barack Obama pela televisão.

Aquele era um dia histórico, quando um preto americano se tornava presidente. Ficou claro, para mim, a capacidade de expressão daquele homem. O discurso deste novo presidente parecia trazer uma nova era.

Tempos depois, porém, comparando palavra por palavra o discurso de Obama com o de George W. Bush, proferido anos antes, realizei que as diferenças eram mínimas.

Vejo dois aspectos importantes nessa “semelhança”: (1) as instituições americanas são fortes o suficientes para impedirem que um presidente “possa” tudo, e (2) pessoas diferentes podem dizer a mesma coisa, criando um impacto completamente oposto.

O que diferencia o ser humano dos demais animais? A capacidade de contar histórias. O discurso humano é nossa maior virtude, capaz de criar nações, países, paixões, ídolos, etc. Nenhuma virtude supera a capacidade de se comunicar de um líder – como já dizia Chacrinha. “quem não se comunica se trumbica”.

A sucessão de Obama deveria ter sido uma mulher democrata, como assim votaram a maioria dos americanos. Porém, o sistema de castas eleitoral americano elegeu um apresentador de “reality show”, digno de piada, como mencionado no filme “De Volta ao Futuro III” e no desenho animado “Os Simpsons”.

A vitória de Trump sobre Hilary Clinton (sem nenhum elogio à ela) foi um capricho da História, que nunca avança em linha reta. A História sempre segue uma trajetória sinuosa e, para cada avanço, vivemos um certo retrocesso, como forma de fortalecer o passo para frente, e tornar o terreno mais firme.

Os quatro anos de Trump foram um suplício global. A saída de Donald Trump da Casa Branca, pela porta dos fundos, lembrou-me da saída do general Figueiredo, em 1985. Ambos deixaram o governo com raiva, e sentindo-se injustiçados. No entanto, creio que, na verdade, sair pela porta dos fundos é uma forma que as pessoas vaidosas encontram para evitarem de mostrar sua própria vergonha.

Figueiredo entregou o que prometeu – principalmente, e em destaque, a abertura política. Porém, saiu por trás não por seu governo, mas talvez porque tinha consciência, como filho de exilado político, de que todo o período do governo militar - que participou e representou no final – era uma vergonha.

Trump deixou o governo pela porta dos fundos porque não entregou nada que prometeu, e deixou um planeta pior.

Donald Trump, ex-presidente dos EUA
Donald Trump, ex-presidente dos EUA, discursa a seus seguidores em Palm Beach, na Flórida, em 15 de novembro de 2022. Foto: Alon Skuy/AFP

Sopro de alívio

O discurso de Biden, em 20 de janeiro de 2021, difere de sobremaneira de seus antecessores porque, para falar coisas básicas da humanidade, teve que recorrer a Martin Luther King e a Santo Agostinho.

Biden chega como um sopro de alívio, de mãos dadas com Kamala, a candidata mais provável de ser a primeira mulher a sentar na Casa Branca, de um jeito ou de outro.

O discurso de Biden, simples e direto de como quem atende um paciente na UTI, é a busca de um novo enredo não só para os EUA, mas para todo o mundo.

A grande lição do governo Trump é que não podemos aceitar o inaceitável. Como disse Luther King: “Nossas vidas começam a morrer no dia em que calamos sobre coisas que são verdadeiramente importantes.”

Quando reflito sobre o Brasil, sinto que nos falta, há décadas, um “contador de histórias” e um enredo que nos una.

Nas margens do Nilo, que visitei em 2009, estão templos milenares, cobertos de histórias escritas na forma de hieróglifos. O que aquelas paredes revelam é que, desde as cavernas, os contadores de histórias são essenciais. Nas paredes dos templos milenares do Nilo não encontramos jóias, mas temos o testemunho da maior riqueza que o homem pode produzir.

Os discursos de um líder são as paredes que suportam o teto que nos abriga ou que cai sobre nossas cabeças.

* Fersen Lambranho é presidente do conselho da GP Investments e G2D Investments. Publicado originalmente em 21 de janeiro de 2021.

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