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#HISTÓRIA

O empreendedor judeu que nos pariu

Não sou judeu. Mas história dos judeus no Atlântico nos lembra de que são eles os maiores promotores do empreendedorismo e da alocação eficiente de capital nas Américas

Fersen Lambranho, para Headline Ideias
#HISTÓRIA31 de mar. de 214 min de leitura
Porto de Nova Amsterdã em 1667, 13 anos após a chegada dos primeiros judeus à ilha de Manhattan, onde se refugiaram após deixarem Recife, no Brasil colônia, perseguidos pela inquisição portuguesa. Imagem: Arquivo Municipal de New York City.
Fersen Lambranho, para Headline Ideias31 de mar. de 214 min de leitura

A primeira vez que fui a Wall Street, fiquei espantado ao encontrar, no antigo cemitério, tumbas com o nome – em português – de judeus do século 17.

Desde então tenho me interessado e lido bastante sobre o tema e, ao longo do tempo, encontrei livros muito interessantes sobre o assunto. Alguns deles são:

  • “The Island at the Center of the World: The Epic Story of Dutch Manhattan and the Forgotten Colony That Shaped America”, um livro de não ficção, de 2005, escrito pelo jornalista americano Russell Shorto;

  • “City of a Dreams: History of Nieuw Amsterdan and Early Manhattan”, de Bervly Swerling, publicado em 2001.

Ambos estão traduzidos para o português e, juntos, permitem entender razoavelmente bem como Nova York foi formada. Encontramos, nesses livros, menções aos judeus brasileiros que, no século 17, também participaram da construção da cidade do Recife, durante o período da Companhia das Índias na ocupação holandesa.

Recife, naquela ocasião, não só tinha as duas únicas sinagogas das Américas, como possuía scholars relevantes no mundo judaico.

O tema da contribuição destes judeus na construção da cidade de Nova York é polêmico. Porém, durante o governo de Obama, a Casa Branca soltou uma declaração, no dia 1º de maio de 2012:

“Há 358 anos, um grupo de 23 refugiados judeus fugiu do Recife, Brasil, acossado pela intolerância e opressão... Quando esses homens, mulheres e crianças desembarcaram em Nova Amsterdam – hoje cidade de Nova York... sementes de uma tradição de liberdade e oportunidade que uniria para sempre suas histórias à história americana”.

Arrancados da terra

O brilhante jornalista, escritor e cearense Lira Neto publicou o livro: “Arrancados da Terra”, no qual aborda, de forma competente, todo o processo de expulsão dos judeus da Península Ibérica, que acabou por alimentar, com cérebros e capital, o mercantilismo holandês.

O casamento da tradição judaica com o calvinismo não aconteceu sem percalços, e o Novo Mundo foi, de certa medida, uma alternativa ambicionada para a nação de Moisés. O Brasil do açúcar e do Pau-Brasil, uma terra imensa, parecia ser a melhor opção para gerar riqueza e prover liberdade. No entanto, depois de tantas desvalias nos trópicos, foi na América do Norte que os judeus, inclusive oriundos do Brasil, encontraram a oportunidade de prosperar e gozar de uma maior liberdade.

Com sua obra, Lira Neto completa essa trilogia – que recomendo, no sentido de dar clareza, em 360 graus, a respeito de como cérebros e capital circularam pelo Atlântico, definindo o mundo que vivemos hoje.

Por que isso é importante? Não sou judeu. Imagino que você deve estar se perguntando. Entendo que é relevante ver quanto desta história foi uma disputa econômica muito mais relevante do que uma questão religiosa.

Três livros a respeito do grupo de judeus que deixou o Recife para busca refúgio em Nova Amsterdã, onde hoje se situa Nova York.

Força empreendedora

Na semana passada, manchetes no Brasil falaram de empresários que compraram e se vacinaram de forma clandestina em Belo Horizonte. Por que empresários? Não seriam apenas donos de companhias de ônibus?

Não faltaram artigos criticando a carta dos economistas e empresários sobre a forma que o governo brasileiro tem tratado a pandemia. Essas críticas almejam identificar os empresários como a base de sustentação arrependida do governo eleito em 2018. Não teríamos, em todas as classes de brasileiros, algumas pessoas arrependidas? Seria a maioria dos empresários apoiadores do atual presidente? Não acredito.

Nos julgamentos dos escândalos do Mensalão e da Lava-Jato da Petrobras, vimos com satisfação a prisão de empreiteiros que corromperam agentes públicos. Porém, não tivemos a indignação suficiente para levarmos esses agentes públicos ao mesmo destino – afinal, a corrupção existe dos dois lados da mesa.

Independente desta forma desequilibrada de punição, não seriam esses agentes de corrupção mais bem definidos como grandes empreiteiros? Por que classificar genericamente como empresários?

Embora, neste período, a história dos judeus no Atlântico seja marcada por perseguições, sabemos também que são eles os maiores promotores do empreendedorismo e da alocação eficiente de capital nas Américas.

Entender essa história talvez nos traga a consciência de que não podemos depreciar o termo “empresário”, usando-o para qualificar atos de desonestidade e banditismo. Lembrando sempre que as palavras têm poder.

Entender essa história talvez nos ajude a perceber onde nos perdemos, e qual seria o caminho para o futuro. Não existe possibilidade de desenvolvimento de uma nação sem a força empreendedora de empresários.

* Fersen Lambranho é presidente do conselho da GP Investments e G2D Investments. Texto publicado originalmente em 31 de março de 2021.

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