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Quando o “Kiss the Ground" eclipsa o “Social Dilemma”

Documentário mostra que o melhor modo de cuidarmos do planeta é uso da terra por meio de técnicas mais naturais. Nada além do que o homem, ao longo de milênios, sempre fez

Fersen Lambranho, para Headline Ideias
#MEIO AMBIENTE29 de set. de 204 min de leitura
Cena de Kiss the Ground, documentário disponível na Netflix que prega o uso mais natural da terra e de seus recursos como forma de preservação e de ambientalismo. Foto: divulgação/Kiss the Ground
Fersen Lambranho, para Headline Ideias29 de set. de 204 min de leitura

Observamos muita polêmica sobre o "Social Dilemma", documentário da Netflix, mas o filme que realmente deveria estar sendo debatido e discutido, na minha opinião, é "Kiss the Ground".

Razoável que as pessoas estejam preocupadas com sua privacidade, mas isso, em qualquer escala de valores, não supera a importância e a necessidade de nos preocuparmos com a fato que o homem tem de reduzir as emissões de carbono urgente.

"Kiss the Ground", outro documentário da Netflix, mostra, em 90 minutos, que o modo de cuidarmos do planeta nada mais é do que a utilização de técnicas naturais, que garantam plantio de diversas culturas no mesmo espaço físico, uso menos agressivo da terra, interação com animais nas plantações, e coisas assim. Nada além do que o homem, ao longo de milênios, sempre fez. Tais práticas podem regenerar, em uma década, qualquer solo desgastado, além de aumentarem a produtividade agrícola, a qualidade dos alimentos e, consequentemente, beneficiar o ser humano.

O importante é ter plantas, em abundância, para fixar o carbono no solo. A ciência está concluindo o que os índios, que são os Jardineiros do Senhor, sempre souberam – a floresta é fruto do trabalho contínuo dos pássaros, dos ventos, dos bilhões de seres, incluindo o Homo sapiens.

No início do século 20, milhares de sertanejos cearenses foram para a Floresta Amazônica, trabalhar na extração da borracha. Gente brava, desesperada, faminta e pobre, que foi povoar a região da Amazônia. E lá ficou, sem passagem de volta, quando o boom da borracha acabou.

Os seringueiros foram absorvidos pela floresta e educados por esta. A importância de Chico Mendes está no fato de um "branco" ter conseguido entender a lógica de que, na floresta, você não é dono de nada, mas pode usufruir dos recursos desta enquanto estiver vivo. Chico Mendes é importante por ter sido capaz de se unir aos índios, na mensagem de que a floresta é bem de todos, rompendo qualquer rivalidade anterior.

A Amazônia não é apenas a maior floresta do Mundo, mas também possui a maior biodiversidade. O Rio Amazonas é um gigante de águas, porém as copas das árvores da floresta igualmente carregam umidade e água, e em volume semelhante. São dois rios que correm em paralelo: um no chão, e outro no ar. O agronegócio e as cidades do Brasil dependem desse ecossistema.

Discurso antológico

Em 1987, o jovem Ailton Krenak, durante a Assembleia Constituinte, subiu na tribuna e fez um discurso antológico, pintando o rosto de preto (dentro da tradição indígena), e clamando atenção ao que os índios tinham para contribuir para a saúde do país. Passados 32 anos, vale ver o video de 60 minutos (logo acima), no qual Ailton Krenak dá um testemunho tão atual, e totalmente coordenado com a mensagem do "Kiss the Ground".

Cuidar do homem é impossível sem cuidar do planeta – inclusive, estamos vivendo uma pandemia que afeta apenas os seres humanos. As demais bilhões de formas de vidas do planeta não estão sendo atingidas pelo covid. Fica a questão se a raça humana vai fazer falta no planeta e no universo – mesmo sem nós, ambos seguirão existindo.

O tema me lembra a famosa carta de Seattle de 1854, escrita por um chefe indígena para o presidente americano, quando este fez uma oferta para comprar as terras dos índios.

“Vocês devem ensinar às suas crianças que o solo a seus pés é a cinza de nossos avós. Para que respeitem a terra, digam a seus filhos que ela foi enriquecida com as vidas de nosso povo. Ensinem às suas crianças o que ensinamos às nossas, que a terra é nossa mãe. Tudo o que acontecer à terra, acontecerá aos filhos da terra. Se os homens cospem no solo, estão cuspindo em si mesmos.

Isto sabemos: a terra não pertence ao homem; o homem pertence à terra. Isto sabemos: todas as coisas estão ligadas, como o sangue que une uma família. Há uma ligação em tudo. O que ocorrer com a terra, recaíra sobre os filhos da terra. O homem não tramou o tecido da vida; ele é simplesmente um de seus fios. Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo.”

A diferença entre nós e os povos originais é que eles só agem no coletivo. Como não existe o "privado", não existe o "Social Dilemma". Eles entendem que não há privacidade a ser preservada – afinal, todos fazem parte do Todo, e deveriam "Kiss the Ground".

* Fersen Lambranho é presidente do conselho da GP Investments e G2D Investments. Texto publicado originalmente em 29 de setembro de 2020.

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