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Quando o nosso brilho vai muito além da Sapucaí

As medalhas de ouro estão vindo no peito de gente que representa a imigração e nossa miscigenação, além de provar que talento não conhece qualquer tipo de preconceito

Fersen Lambranho, para Headline Ideias
#ESPORTE8 de ago. de 214 min de leitura
Adhemar Ferreira da Silva, medalhista de ouro brasileiro no salto triplo nas olimpíadas de 1952 e 1956. Foto: Associated Press/Wikipeadia/Domínio Público
Fersen Lambranho, para Headline Ideias8 de ago. de 214 min de leitura

Na minha infância, um medalhista olímpico era uma raridade.

Imagino que poucos sabem que o grande Adhemar Ferreira da Silva, ganhador da medalha de ouro no salto triplo em 1952 e em 1956, bancou sua ida às Olimpíadas, e foi demitido porque atleta era, por definição, vagabundo.

Adhemar, o semideus da minha infância, era um homem simples. Simples como as pessoas que, na minha lembrança, saem todos os dias dos trens lotados na Central do Brasil.

Eu adorava assistir aos jogos olímpicos. Era algo de um outro planeta, no qual os simples mortais brasileiros não eram capazes de competir.

Fui ver o Brasil ganhar uma medalha de ouro, pela primeira vez, nas Olimpíadas de Moscou em 1980 – na vela, que é um esporte de elite, e neste caso foram duas medalhas de ouro. Eduardo Penido, um dos ganhadores, foi meu colega de turma no Colégio Santo Agostinho. Foi um feito, mas ainda não era o suficiente para ver o país como competitivo.

Entre as Olimpíadas de Moscou e de Los Angeles, dois eventos vão marcar o esporte do Brasil:

  • Luciano do Valle, um jornalista de prestígio da Rede Globo, decidiu empreender, e alugou tempo de televisão, aos domingos, para promover todos os esportes possíveis. Luciano tirou o Brasil da algema do futebol à fórceps, e ousou sonhar além do Maracanã;


  • A Atlântica Boavista, comandada pelo saudoso Braguinha, resolveu investir do vôlei para criar uma nova paixão nacional.

Em 1984 o ouro veio, mais uma vez, do atletismo, no peito de Joaquim Cruz, um garoto pobre que se tornou nosso novo "Adhemar". Porém, em 1984, o Brasil subiu no podium para prata e bronze como nunca antes na historia até então.

Em 1988 o judô medalhou ouro, e ganhamos medalhas no atletismo e na vela. O ouro do vôlei veio em 1992. Nos anos seguintes, fomos nos "consolidando" em alguns esportes.

Quando o Rio de Janeiro sediou suas Olimpíadas, em 2016, o Brasil já foi capaz de conseguir 7 ouros, 6 pratas e 6 bronze – isso representou 15% das medalhas que o Brasil conseguiu desde 1920, e 23% das medalhas de ouro.

Fruto de um trabalho pioneiro de muitos ao longo das décadas, e de um incentivo mínimo de bolsas do governo nos anos mais recentes, o quadro olímpico do Brasil mudou.

Rebeca Andrade no Mundial de Ginástica de 2021, no Japão
Rebeca Andrade no Mundial de Ginástica de 2021, no Japão. Foto: CBG/Agência Brasil

Melhor participação

No Japão, o Brasil teve a sua melhor participação da história, superando o resultado obtido em sua própria casa – o que é raro.

Continuamos a ter o resultado na vela, mas esse já não dominante. A grande vitória do Japão está expressa, com clareza, nas medalhas que vêm do nosso povo mais simples. Essa vitória é a prova cabal de que, entre 220 milhões de pessoas, existem talentos que basta serem estimulados.

As medalhas de ouro estão vindo no peito de gente que representa a imigração e nossa miscigenação, além de provar que talento não conhece qualquer tipo de preconceito, e surge na favela, na casa do rico, no interior, na capital, no Nordeste, no Sudeste, no preto, no branco, no cafuzo, no índio, na mulher, no homem, etc.

As Olimpíadas de 2020/21 entram na história confirmando que o Brasil pode sonhar em ser uma potência olímpica. Pela primeira vez, e de forma contundente, ficou provado que o talento se distribui igualmente entre todos. Nasceram semideuses como Rebeca, Isaquías, Ana Marcela, Herbert e tantos outros que são os novos "Adhemar".

Quem tem 220 milhões de pessoas tem obrigação de cuidar destas.

Não deve ser por outra razão que este evento, tão relevante, terminou – pela primeira vez – no Dia dos Pais. O dia de se comemorar o amor incondicional.

* Fersen Lambranho é presidente do conselho da GP Investments e G2D Investments. Texto publicado originalmente em 8 de agosto de 2021.

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