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Quem quer que seja o presidente, existe uma “Agenda Inadiável” para o Brasil

Precisamos ter em mente que uma nação se faz de cérebros e do sentido de humanidade que nos une. Que temos que, em conjunto, acreditar que somos capazes de inovar

Fersen Lambranho, para Headline Ideias
#POLÍTICA30 de out. de 226 min de leitura
Jair Bolsonaro versus Luiz Inácio Lula da Silva: um presidente e um ex-presidente se enfrentam nas eleições de 30 de outubro de 2022. Fotos: montagem sobre fotos de Evaristo Sá/AFP
Fersen Lambranho, para Headline Ideias30 de out. de 226 min de leitura

As eleições de 2022 encerram um processo que começou em 2013, quando a esquerda brasileira perdeu o monopólio das ruas, num ciclo que provavelmente se iniciou no movimento das “Diretas Já”, em 1984.

As pautas dos últimos oito anos já não discutiam a democracia, mas questionavam a forma de governança do pais. Neste último pleito, o que esteve em debate foi o tipo de governo que desejamos, e até que ponto o conceito de democracia deve avançar, para garantir a igualdade de oportunidades para todos, como bem estabelece a Constituição de 1988. A maior lição desta quase década é que, fora da política, não temos salvação.

Nesse momento, que este texto está sendo publicado, temos 50% de pessoas felizes e 50% de pessoas frustadas. No entanto, isso é irrelevante, porque somos um povo só, que quer o melhor para seu país. Se você estava de verde e amarelo porque queria expressar o seu patriotismo, se você estava de vermelho porque acreditava que existem batalhas fundamentais a serem vencidas para que sejamos uma nação justa/democrática, se você estava de branco (ou talvez preto) porque não se sentia representado por nenhum dos candidatos, nada disso importa, porque somos um único povo, e todos desejamos um futuro melhor para o país que tanto amamos.

Eu tinha “lado”. 90% dos brasileiros tinham “lado” consolidado, como nunca aconteceu em eleições passadas. 79% dos brasileiros apoiam a democracia (DataFolha em 20 outubro) como o melhor regime político para o país, no que constitui o maior percentual desde o fim da década 80. Por isso que, de propósito, escrevo esse texto antes de saber quem venceu as eleições.

O presidente que tomará posse, que não será um novato, terá um mandato para gerir o Brasil em benefício de todos os brasileiros, sem exceção. No meu conceito, deveríamos acabar com o termo “apoiadores do presidente”, porque somos todos cidadãos com os mesmos direitos e deveres. O presidente é um servidor público, com obrigações constitucionais, e todos os brasileiros têm o direito de, sem medo, cobrá-lo por isso.

A partir de 1º de janeiro de 2023 temos um encontro marcado com o futuro, e um compromisso de derrubar os muros invisíveis que nos separam. O novo governo e o novo Congresso Nacional precisam dar respostas concretas para um país que, embora riquíssimo de recursos de toda ordem, tem um legado social inaceitável.

Muito se fala da economia em uma campanha política, mas dificilmente se avança em outros temas. No geral, nos últimos 60 anos, em raros momentos não tivemos um economista competente no Ministério da Fazenda ou no Banco Central. A pauta, porém, é muito mais extensa, e vai além da gestão da economia que, ao final das contas, é um meio e não o fim.

Nosso maior ativo são os mais 200 milhões de cérebros que precisam de educação básica de qualidade, de modo que possamos estancar um desperdício histórico afinal a educação é a ferramenta de formação do capital humano que abre as portas para a igualdade de oportunidades.

Iniciativas não menos importantes são o aperfeiçoamento do nosso SUS, para aumentarmos mais ainda sua potência, e um sistema de segurança pública que dê ao Estado condições de tirar o Brasil da lista de um dos países mais violentos do planeta. As pessoas precisam se sentir acolhidas, independente do gênero, cor, religião e geografia.

Nosso potencial como economia verde, seja na Amazônia ou nos demais biomas, é nosso segundo maior ativo, e pode nos dar um protagonismo global como nunca tivemos. Nossa matriz energética, uma das mais verdes do mundo, pode ainda ser melhor e exportável, qualquer que seja o caminho que a tecnologia tome no futuro.

Nossa vasta população nos permite ter escala para desenvolvermos uma indústria pujante, desde que percamos o vício de não nos abrirmos para o mundo. Esse mesmo potencial humano nos leva a acreditar que o incentivo radical ao empreendedorismo constitui a maior ferramenta de governo para promoção da inclusão social e do crescimento sustentável.

Altivo-independente

Nossa posição geopolítica nos obriga a buscarmos um posicionamento altivo/independente sem nos intimidarmos, e precisamos nos conectar ao mundo e suas cadeias produtivas, da forma mais digital possível. Nossa diplomacia precisa olhar o mundo como um campo de interesses econômicos, e tornar-se pró-ativa, como fazem países como os Estados Unidos e o Reino Unido, por exemplo.

A começar pelo próprio Estado e governo temos de pular etapas nessa conexão com o planeta, digitalizando processos e controles, de forma a baratearmos custos e potencializarmos os recursos, sabendo que o mundo já está “figital” (físico-digital), e que não há tempo a perder.

Cartaz sobre a "Agenda inadiável", do grupo Derrubando Muros
Publicidade sobre a "Agenda Inadiável", conjunto de propostas políticas feitas pelo think tank Derrubando Muros. Imagem: Divulgação/Derrubando Muros

Precisamos ter em mente que uma nação se faz de cérebros e do sentido de humanidade que nos une. Que temos que, em conjunto, acreditar que somos capazes de inovar e que, para tal, necessitamos de “método”, e que o Estado atue como indutor e facilitador de um processo estruturado para alcançarmos os nossos “moonshots”, copiando as experiências bem sucedidas de outros países. O Brasil precisa atrair talentos e conhecimento, para garantir um caldo de cultura que nos ajude no processo de inovação contínua. O Brasil, por conta do seu clima, custos e tamanho, é o país ideal para atrair os “nômades digitais”, que estão construindo uma nova economia.

Essa conjunto de temas está na “Agenda Inadiável”, disponível no e-book do www.derrubandomuros.org tanto para o governo que agora assume, como para a oposição, sempre tão necessária. A “Agenda Inadiável” do DM é uma plataforma aberta para quem quiser cooperar, e ainda carece de outros capítulos, porque esse é um trabalho sem fim.

Essa Agenda Inadiável é do Brasil, porque os governos passam, mas o povo estará aí para, em 2026, votar de forma livre e democrática. Espero que, em 2026, a agenda seja menos inadiável, e os debates mais focados em propostas para resolvermos o nosso mais importante indicador de desempenho como país, que é o nível grave de pobreza. No fim do dia, em que pesem todas as nossas virtudes, essa pobreza é o que nos define, e ainda restringe o pleno exercício da nossa democracia.

* Fersen Lambranho é presidente do conselho da GP Investments e G2D Investments. Publicado originalmente no Pipeline (Valor Econômico) no dia 30 de outubro de 2022.

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